Inclusão digital e autonomia

Em um mundo cada vez mais digital, o acesso às tecnologias tornou-se essencial para a participação na vida cotidiana, a formação profissional e o exercício da cidadania. Nesse contexto, a inclusão digital deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade para ampliar a independência e a autonomia social.

Baseado nessa realidade, o Centro Cultural e de Formação Indígena (CCFI), coordenado pela Fraternidade – Missões Humanitárias Internacionais (FMHI), ofereceu a indígenas migrantes e refugiados uma formação em informática básica e ferramentas de criação digital, com ênfase em edição de vídeos. A proposta buscou desenvolver habilidades voltadas ao mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, ampliar as possibilidades de expressão cultural, preservação de saberes e inserção socioeconômica.

Tecnologia como ferramenta de expressão

O curso procurou transformar a tecnologia em um canal de expressão e protagonismo. A meta foi promover uma inclusão digital que respeitasse e valorizasse a identidade cultural dos jovens, e também contribuísse para reduzir o medo diante da tecnologia e fortalecer a autonomia dos participantes.

Entre os principais desafios esteve a heterogeneidade da turma. Dos 15 participantes, havia diferentes níveis de alfabetização e de domínio do português e do espanhol, além de um jovem que falava apenas sua língua materna. Segundo os instrutores Paulo e Irmã Lucia de Jesus, a barreira linguística e as dificuldades de leitura exigiram uma metodologia essencialmente prática e visual, com menor ênfase na teoria. A resposta dos estudantes foi rápida e positiva.

Ao longo da formação, os alunos demonstraram criatividade e autonomia no uso das ferramentas digitais. As habilidades adquiridas podem contribuir para a economia familiar, especialmente entre aqueles envolvidos com artesanato e pequenos empreendimentos tradicionais, pois podem possibilitar a divulgação de produtos, serviços, histórias e saberes a partir da perspectiva dos próprios jovens.

Mesmo diante das diferentes condições de alfabetização, todos conseguiram produzir materiais digitais. A experiência favoreceu a superação pessoal, o engajamento e a ampliação dos conhecimentos básicos de informática.

Para Paulo, servidor humanitário e um dos instrutores do curso, uma das experiências mais significativas foi acompanhar a alegria dos estudantes ao realizar buscas na internet e encontrar, no site da Fraternidade – Missões Humanitárias (FMHI), imagens e matérias produzidas nos abrigos onde vivem, nas quais eles e seus familiares eram retratados com dignidade. Outro momento marcante ocorreu quando utilizaram imagens de satélite para localizar os territórios de origem seus povos.

“Ver a vibração e a emoção deles ao reencontrarem suas origens na tela, conectando a tecnologia à preservação de sua própria história e identidade, foi um dos momentos mais bonitos,” destacou Paulo.

Outro ponto importante da formação foi que um dos estudantes também passou a atuar como monitor, apoiando os colegas e fortalecendo o protagonismo dentro da turma.

Percepções e aprendizados

Gregório, do povo Warao, e aluno do curso, afirma que gostou muito do que aprendeu e valoriza muito o aprendizado que recebeu, reconhecendo que o curso contribuiu para seu crescimento pessoal. Menciona ainda, que gostaria de continuar aprofundando as atividades no futuro. Agradece muito a Fraternidade – Missões Humanitárias (FMHI), por ter oferecido o curso para seu povo.

O jovem Richard, do povo Akawaio, expressou que o curso foi edificante e útil para sua nova vida. Ele observou que o treinamento lhe permite criar visões e tem o potencial de transformar sua vida, mencionou satisfação pessoal e entusiasmo por participar integralmente do curso de inclusão digital. Segundo ele, o fato de o curso ter sido gratuito foi um fator importante para a participação da comunidade, dando habilidades básicas de informática e produção de conteúdo visual que agregam um diferencial na busca por emprego.

A experiência consolidou-se, assim, como uma possibilidade de afirmação identitária. Ao aprender a utilizar ferramentas digitais, os jovens indígenas e refugiados ampliam sua autonomia e assumem também o papel de narradores de suas próprias histórias.

O ambiente virtual, antes distante, passa a ser um espaço de expressão, preservação e difusão de memórias, saberes e culturas. Dessa forma, a inclusão digital amplia possibilidades de inserção socioeconômica sem desvincular os jovens de suas raízes e fortalece sua presença e sua voz no mundo digital.