Educação, cuidado e autonomia: os caminhos da Missão Angola Humanitária em 2025

A Missão Angola Humanitária, coordenada pela Fraternidade – Missões Humanitárias Internacionais (FMHI), desenvolveu em 2025 um conjunto expressivo de ações voltadas à educação, saúde, meios de vida e comunicação em parceria com instituições locais, como a Obra de Caridade da Criança Santa Isabel (O.C.S.I.), a Universidade Jean Piaget de Angola, o Instituto Nacional da Criança (INAC), as Irmãs Doroteias e a Casa da Família, a missão deu continuidade a um trabalho iniciado em 2019, fortalecendo redes de cuidado e promovendo a dignidade humana.

Durante o primeiro quadrimestre de 2025, quinze servidores humanitários voluntários atuaram diretamente nas atividades, desenvolvendo projetos que alcançaram crianças, adolescentes, jovens, educadores, profissionais da saúde e famílias. As ações foram estruturadas a partir de quatro eixos principais: Educação Orientada à Superação do Trauma, Saúde e Autocuidado, Meios de Vida e Comunicação. A proposta integrou práticas educativas, artísticas, terapêuticas e formativas, respeitando os contextos locais e valorizando o protagonismo dos grupos atendidos.

No campo da Educação Orientada à Superação do Trauma, a arte-educação teve papel central. Atividades com desenho, pintura, música, histórias e contato com elementos da natureza foram utilizadas como ferramentas de expressão, autorregulação emocional e ressignificação de vivências dolorosas. Segundo o relatório, “vivências artísticas com cores, formas, elementos da natureza e histórias são utilizadas para auxiliar a expressão da criatividade, a ampliação da autoconfiança e a ressignificação de vivências dolorosas do passado”. Essa abordagem foi aplicada tanto em atividades grupais quanto em momentos individuais, alcançando crianças e adolescentes do ensino primário e secundário.

A música destacou-se como uma das principais linguagens de expressão e cuidado, sobretudo a partir da revitalização da sala de música da Casa da Criança Santa Isabel, transformada em um estúdio acústico com materiais reciclados. O Projeto Alabanzas  envolveu crianças e jovens em todas as etapas do processo criativo, desde a composição das músicas até a gravação e edição de videoclipes. Para Domingas Loureiro, diretora da O.C.S.I., o impacto foi profundo: “A música é uma das mais belas expressões da alma da Casa da Criança Santa Isabel. É através dela que crianças e jovens expressam suas vivências mais profundas e ressignificam suas vidas, seus traumas”.

Além das atividades artísticas, o reforço escolar foi trabalhado como espaço de fortalecimento de vínculos e construção de confiança. Para além da revisão de conteúdos, os encontros buscaram criar um ambiente seguro para a partilha, o desenvolvimento da autoestima e o estímulo ao aprendizado. A educação ambiental também integrou esse eixo, com ações voltadas ao cuidado com animais, plantas e espaços comuns, envolvendo as crianças em práticas de responsabilidade e convivência saudável com o meio ambiente.

Outro destaque de 2025 foram as capacitações realizadas com estudantes e profissionais. A terceira edição do curso de Educação Orientada à Superação do Trauma, em parceria com a Universidade Jean Piaget de Angola, reuniu estudantes finalistas de Psicologia e abordou as múltiplas dimensões do trauma e seus impactos no desenvolvimento humano. Os participantes tiveram contato com metodologias práticas de cuidado, tanto para quem sofre situações traumáticas quanto para quem atua diretamente no cuidado de outras pessoas. O estudante Isaac Monteiro relatou: “Com este curso pude ver que, na realidade, existem sim várias situações de emergência aqui em nosso país e nós, enquanto psicólogos, temos essa função de atuar ao nível psicológico para intervir nessas situações”.

No eixo Saúde e Autocuidado, a missão atuou em apoio direto à equipe de saúde da O.C.S.I., com ações de prevenção, capacitações e acompanhamento de bebês, crianças e adolescentes. Foram realizados atendimentos terapêuticos individuais e em grupo, atividades de estimulação sensorial no berçário e acompanhamento de crianças e jovens com deficiência. Encontros com as chamadas “Mamás” fortaleceram redes de apoio, ampliando o diálogo sobre cuidados básicos, saúde emocional e bem-estar no cotidiano.

A promoção dos Meios de Vida foi outro aspecto relevante do trabalho. Oficinas de costura, padaria, artesanato e manutenção envolveram jovens e adultos em processos de aprendizagem prática, geração de renda e fortalecimento da autoestima. Na oficina de costura, por exemplo, o relatório destaca que “foram espaços de autocuidado, fortalecimento da autoestima e valorização dos potenciais individuais e grupais”. Já a padaria, ativa desde 2023, passou a suprir parte do consumo semanal da Casa da Criança, aliando produção, formação e participação ativa das crianças e adolescentes.

No campo da Comunicação, o Projeto Alabanzas também contribuiu para a formação técnica dos jovens, que aprenderam noções de fotografia, captação de vídeo, redação de textos, edição e divulgação de conteúdos nas redes sociais. A equipe voluntária de comunicação da Fraternidade – Missões Humanitárias (FMHI) acompanhou todas as etapas do processo, garantindo qualidade técnica e fortalecendo o protagonismo juvenil na narrativa de suas próprias histórias.

As atividades externas realizadas ao longo do ano ampliaram os vínculos entre participantes e voluntários, oferecendo novos espaços de convivência, aprendizado e troca. Encontros no Núcleo-Luz de Figueira, em Angola, e visitas institucionais reforçaram o diálogo com diferentes contextos sociais, acadêmicos e comunitários. Essas experiências, segundo a equipe da Fraternidade – Missões Humanitárias (FMHI), “dão à convivência um outro grau de relação e estreitam os laços entre todos, fazendo dos processos de aprendizagem e de cuidado momentos inesquecíveis de fraternidade”.

Em termos quantitativos, a Missão Angola Humanitária atendeu diretamente 175 pessoas em 2025, considerando crianças, adolescentes, jovens, educadores e colaboradores. Os dados refletem a diversidade de faixas etárias e a abrangência das atividades, que contemplaram desde bebês até adultos, com atenção especial às necessidades específicas de cada grupo.

O trabalho desenvolvido também fortaleceu as relações institucionais, tanto em Luanda quanto em Benguela, ampliando parcerias estratégicas e criando condições para ações futuras de maior alcance. Para ações a longo prazo, a Fraternidade – Missões Humanitárias (FMHI) planeja iniciar projetos em áreas rurais voltados ao desenvolvimento sustentável e à produção de alimentos, além de aprofundar as iniciativas de capacitação e avançar no registro institucional da organização em Angola.

Ao longo de 2025, a Missão Angola Humanitária reafirmou seu compromisso com uma atuação integrada, baseada no acolhimento, no serviço desinteressado e na promoção da dignidade humana. As ações realizadas demonstram que educação, arte, saúde e trabalho podem caminhar juntos na construção de caminhos de cuidado, autonomia e transformação social, respeitando os tempos, as histórias e as potencialidades de cada pessoa atendida.

“Entre idas e vindas em um trânsito turbulento, a Missão Angola foi vivida como um mergulho em territórios desconhecidos de nós mesmos, onde cada gesto se tornou aprendizado e cada realidade encontrada ampliou o olhar. No cotidiano do trabalho, fomos crescendo com as experiências compartilhadas e com os desafios que se apresentavam ao longo do caminho.

Seja com lápis de cor, agulha e linha, a massa do pão, as brincadeiras de roda, os silêncios, os gestos de cuidado, os abraços, o acolhimento ou a simples presença ao lado, a Missão Angola revelou-se uma experiência transformadora. Um percurso que convidou à ampliação da consciência, ao rompimento de limites e à vivência de um cuidado profundo, humano e verdadeiro, presente de forma silenciosa nas relações construídas dia após dia”, com essas palavras, Madre Teresa, coordenadora da Missão Angola Humanitária, expressa o seu sentir sobre a experiência vivida nessa missão.

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